O mês de julho de 2025 marca o início oficial das atividades do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Inteligência Artificial Responsável para Linguística Computacional, Tratamento e Disseminação de Informação (INCT TILDIAR). Seu foco é desenvolver uma inteligência artificial responsável aplicada à linguagem natural, integrada à cultura brasileira.
Sediado no Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais, o projeto foi aprovado na Chamada nº 46/2024 do Programa Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia. A iniciativa é realizada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, com apoio do CNPq, da Capes e das Fundações de Amparo à Pesquisa, incluindo a Fapemig.
Dentro do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, os INCTs são considerados fundamentais devido a seu foco em áreas específicas de conhecimento e à sua complexidade organizacional e financeira. Ao todo, foram apresentadas 651 propostas, das quais 121 foram selecionadas (clique para conhecer o resultado oficial).

Com financiamento previsto de aproximadamente R$ 9 milhões para cinco anos, o instituto quer desenvolver ações voltadas tanto ao desenvolvimento tecnológico quanto à promoção de boas práticas no uso da inteligência artificial. A iniciativa também pretende ampliar o diálogo com a sociedade, incentivando um uso mais responsável, seguro e informado dessas tecnologias.
O TILDIAR reúne uma rede com cerca de 80 pesquisadores, vinculados a aproximadamente 30 instituições de ensino, pesquisa e inovação, em todas as regiões do Brasil. Também há colaboradores em organizações internacionais.
A coordenação é dos professores Marcos André Gonçalves, do DCC UFMG, e Altigran Silva, do Instituto de Computação (IComp) da Universidade Federal do Amazonas.

IA com sotaque brasileiro
Segundo Marcos André Gonçalves, a proposta do INCT TILDIAR é marcar uma nova etapa da inteligência artificial (IA) responsável no Brasil. O projeto combina alcance nacional, produção de conhecimento em português e compromisso com a sustentabilidade e a inclusão da diversidade social no dia a dia da pesquisa.
Ele aponta um dos diferenciais da nova estrutura: integrar excelência acadêmica com impacto social direto, oferecendo alternativas mais seguras, auditáveis e alinhadas com os desafios enfrentados pela sociedade brasileira.
“Nosso compromisso é desenvolver tecnologias que valorizem a nossa língua, respeitem a nossa cultura e protejam os nossos dados. Queremos sistemas que sejam transparentes em seu funcionamento e sustentáveis em toda a sua jornada, do código à energia que utilizam”, explica Leonardo Chaves Dutra da Rocha, professor da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e coordenador da Comissão de Comunicação do INCT TILDIAR.
Veja abaixo a reportagem da TV Canção Nova
Linguística e IA sustentável
O novo Instituto foca em três eixos temáticos interdisciplinares que unem a linguística e a ciência da computação, particularmente a IA responsável e sustentável, para o desenvolvimento de sistemas capazes de processar e gerar linguagem natural. Estes são os eixos:
Linguística computacional: modelagem computacional da linguagem humana, base para tradutores, assistentes virtuais e chatbots. Pesquisas nessa linha focam no desenvolvimento de recursos e tecnologias de Processamento de Linguagem Natural para o português, promovendo representatividade, diversidade e qualidade dos dados, com atenção à evolução da linguagem, às redes sociais e aos desafios de uma IA responsável alinhada a padrões internacionais.
Tratamento de informação: foco na organização, recuperação e tratamento de grandes volumes de informação, tratando desafios e oportunidades na era dos modelos generativos. Prioridades são eficácia, confiabilidade, rastreabilidade, personalização, equidade e novas arquiteturas como RAG e agentes, especialmente em domínios sensíveis como saúde e direito.
Disseminação de informação: investiga-se como a informação se espalha nas redes sociais, considerando o papel dos algoritmos, a detecção de desinformação, os impactos de emoções e opiniões, a moderação de discursos prejudiciais e a formação da opinião pública, além de promover a alfabetização midiática.
Esses eixos sustentam aplicações populares da IA tais como motores de busca, redes sociais e plataformas de recomendação em streaming. A proposta envolve priorizar o uso da língua portuguesa, promover a inovação responsável, além de formar profissionais de ponta e promover impacto social, ambiental e tecnológico.

O papel do novo INCT
O desenvolvimento da pesquisa de IA direcionada a questões de Linguagem e Informação no Brasil ainda é muito fragmentado. “Há grupos excelentes, mas isolados”, afirma Marcos Gonçalves. “O TILD-IAR deverá favorecer a integração de várias forças, otimizar recursos e garantir que o país não dependa exclusivamente de soluções importadas.”
Outro aspecto relevante é que a IA atual exige cada vez mais energia, dados e poder de cálculo, com alto custo ambiental e financeiro. O INCT busca alternativas à lógica dominante, que ainda pode ser vista como predatória, do ponto de vista da sustentabilidade. A intenção é desenvolver algoritmos mais leves e mais eficientes, na tentativa de eliminar preconceitos embutidos nos processos produzidos por outras culturas.
O conceito de Pesquisa e Inovação Responsáveis (PIR ou RRI, na sigla em inglês) foi desenvolvido na Europa. A abordagem visa alinhar a pesquisa científica às necessidades, valores e expectativas da sociedade, tendo como base responsabilidade, sustentabilidade e inclusão, e priorizando a língua portuguesa e a realidade brasileira.
O objetivo final dessa abordagem é garantir que os resultados da ciência sejam úteis, seguros, sustentáveis e socialmente legítimos, e reforçar a confiança social na ciência e na inovação.
Seis princípios práticos orientam essa abordagem: governança transparente, ética na pesquisa, acesso aberto ao conhecimento, educação científica, igualdade de gênero e engajamento público. E diretrizes complementares antecipam riscos e impactos, promovem a inclusão de múltiplos atores sociais, a abertura dos processos de decisão e a capacidade de adaptação diante de novas informações.
Na prática, portanto, o PIR se ocupa de desenvolver tecnologias a partir de análise crítica contínua e não apenas da percepção dos profissionais do meio acadêmico. Ou seja, privilegia a comunicação e o diálogo com toda a sociedade – não só cientistas, mas legisladores, gestores públicos, educadores, empresários e outros segmentos que possam usufruir ou sentir as consequências das inovações de base científica.
Entregas previstas
O INCT TILDIAR vai desenvolver modelos de linguagem em português para áreas como saúde, justiça e redes sociais; algoritmos auditáveis para busca e recomendação de informação; soluções para reduzir desinformação e discurso de ódio online; ferramentas com menor impacto ambiental; cursos de formação, capacitação e requalificação de profissionais; repositórios abertos de dados, algoritmos e softwares.
Um dos destaques é o minicluster de GPUs (Graphics Processing Units), estrutura essencial para processar grandes volumes de dados e treinar modelos de IA de forma autônoma, fora de nuvens comerciais. GPUs são processadores capazes de realizar milhares de cálculos simultaneamente.
O Instituto contará ainda com sua própria infraestrutura, o que reduz a dependência de de grandes empresas de tecnologia, as big techs, aumenta a autonomia nacional e minimiza o consumo de energia em nuvens comerciais.
A rede prevê também apoio a startups e empresas de base tecnológica; hackathons e eventos de cocriação com o setor produtivo; cooperação internacional com centros de excelência em IA e atividades de divulgação científica para escolas, a mídia e a sociedade.