
Mais de 100 pesquisadores, estudantes e colaboradores de diferentes instituições e regiões do Brasil, além de cientistas da Itália, reuniram-se nos dias 4 e 5 de agosto, em Belo Horizonte. Eles participaram do II Workshop RALI do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Inteligência Artificial Responsável para Linguística Computacional, Tratamento e Disseminação de Informação (INCT TILDIAR).
O encontro foi realizado no Departamento de Ciência da Computação (DCC) da UFMG, que sedia o Instituto.
A programação foi pensada para permitir que os integrantes da rede conhecessem melhor o que cada grupo vem fazendo. A partir dessa aproximação, conhecendo metodologias, resultados e pontos de contato entre os diversos trabalhos da rede, a expectativa é de que os cientistas possam encontrar pontos de contato entre seus trabalhos e seja possível apontar novos caminhos de atuação conjunta.
Ética em pesquisa, soberania digital e a participação do INCT TILDIAR no debate sobre políticas públicas de inteligência artificial no Brasil foram alguns dos temas discutidos.
Rede abrangente
A abertura dos trabalhos foi realizada pelo coordenador do Instituto, Marcos André Gonçalves (UFMG), e pelo vice-coordenador, Altigran Soares da Silva (UFAM).
Após dar as boas-vindas aos participantes, Marcos Gonçalves apresentou dados e objetivos que orientam o INCT TILDIAR. Também destacou a importância da expressiva participação de estudantes e colaboradores no evento, além de mostrar o perfil e a abrangência da rede. Ele mostrou dezenas de equipes distribuídas entre diferentes universidades brasileiras e do exterior, reunindo pesquisadores de distintas formações e áreas acadêmicas.
Parte do Programa INCTs, realizado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o INCT TILDIAR integra uma política estratégica, em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e as Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs).
Já Altigran Soares preferiu focar sua fala na necessidade de o Instituto se posicionar institucionalmente no debate nacional sobre inteligência artificial. Ele propôs a elaboração de documentos que contribuam para a criação de políticas públicas sobre o desenvolvimento e o uso de IA no Brasil.
Pesquisas e novas possibilidades de colaboração
Na etapa de apresentações, ao longo do dia, pesquisadores do INCT TILDIAR, de diferentes áreas, falaram sobre seus trabalhos, resultados, avanços e desafios. As apresentações permitiram que os integrantes da rede conhecessem melhor pesquisas realizadas por seus colegas, especialmente os de outras instituições.
Ao conhecer melhor os trabalhos uns dos outros, foi possível identificar problemas e métodos comuns. A partir dessas conexões, surgiram novas possibilidades de discussões, de sugestões e de parcerias e compartilhamento de experiências e ações conjuntas.
No quadro abaixo você conhece a lista de eixos de pesquisa, nomes dos apresentadores e tem acesso aos slides mostrados no II RALI, com um resumo das principais linhas de ação.
| Eixo | Apresentador |
|---|---|
| Linguística Computacional | Helena de Medeiros Caseli (UFSCar), Daniela Barreiro Claro (UFBA) e Aline Marins Paes Carvalho (UFF) |
| Tratamento da Informação | Edleno Silva de Moura (UFAM), Carina Friedrich Dorneles (UFSC) e Luciano de Andrade Barbosa (UFPE) |
| Disseminação da Informação | Fabrício Benevenuto de Souza (UFMG), Humberto Torres Marques Neto (PUC MG) e Daniel Carlos Guimarães Pedronette (Unesp) |
| IA Responsável e Sustentável | Anna Helena Reali Costa (USP), Jussara Marques de Almeida (UFMG) e Wellington Santos Martins (UFG) |
As apresentações do dia 4/8 estão disponíveis aqui
Do debate aos encaminhamentos
Na sequência do evento, com mediação do professor Leonardo Rocha (UFSJ), os coordenadores dos eixos de pesquisa, das diferentes regiões brasileiras, debateram alguns temas comuns a todos com os demais participantes do workshop.

A conversa passou por questões que já fazem parte dos objetivos do Instituto, mas que agora ganharam propostas de trabalho mais específicas: ética na pesquisa, criação e uso de repositórios de dados, soberania digital e tecnológica e relação com instituições e órgãos do governo.
Os pesquisadores propuseram organizar grupos de trabalho para aprofundar esses temas. Os encaminhamentos ainda serão detalhados e submetidos ao Comitê Gestor do INCT TILDIAR.
Ética em pesquisa de dados
Uma das discussões foi sobre as regras éticas aplicáveis às pesquisas no campo da inteligência artificial. Leonardo Rocha chamou a atenção para as dúvidas que ainda existem sobre os critérios que obrigam um estudo a ser submetido aos comitês de ética e sobre como aplicar esses procedimentos a pesquisas como as da área de IA, cujas características diferem das das áreas de saúde, por exemplo.
“Precisamos de maior clareza dos critérios aplicáveis às pesquisas em inteligência artificial”, afirmou Rocha. Segundo ele, os comitês também podem não estar preparados para atender em tempo hábil ao aumento das demandas.
Tiago Torrent (UFJF) esclareceu os diferentes papéis que uma pessoa pode desempenhar em uma pesquisa e destacou, por exemplo, a importância de se explicitar se o papel do ser humano na pesquisa em IA foi como provedor de dados ou como analista desses dados.
De acordo com ele, em geral, quando o ser humano atua na análise dos dados sua contribuição deve ser reconhecida na autoria científica. Quando exercer a atividade de anotação, deve ser remunerado. “Mas, quando envolve conteúdos sensíveis, como registros de violência, os comitês de ética em pesquisa precisam ser informados”, orienta.
Durante a discussão, os participantes observaram que a área evoluiu na utilização de dados sensíveis. Como exemplo, citaram o uso de bases públicas, como as do DataSUS, desde que sejam respeitados os termos de licença que acompanham esses conjuntos de dados. O debate evoluiu e Torrent foi indicado para coordenar um Grupo de Trabalho sobre Ética na Pesquisa em IA. A proposta será submetida ao Comitê Gestor do INCT TILDIAR, para análise e encaminhamentos.
Soberania digital
O termo “soberania digital” também ocupou um espaço importante no debate. A discussão, que começou a partir de uma proposta de Altigran Soares, na abertura do evento, avançou para uma questão mais ampla: como o Brasil pode ampliar sua autonomia científica e tecnológica em inteligência artificial.
Durante o debate, os pesquisadores discutiram a dependência de plataformas e serviços estrangeiros, o desenvolvimento e uso de modelos abertos, a produção e preservação de bases de dados nacionais e a formação de pessoas capazes de usar sistemas de IA de forma crítica e responsável.
Para o professor Edleno Silva de Moura, também da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), o INCT deve ser ainda mais proativo e pensar formas de contribuir para a soberania em inteligência artificial antes mesmo de iniciativas institucionais dos governos.
“Como pesquisadores, temos um papel-chave na compreensão da relevância para essa soberania, por exemplo, no que se refere a transferência de tecnologia para a sociedade, produção de recursos, repositórios, coleções e modelos que a sociedade possa usar, e na busca por interações fortes com startups nacionais”, afirmou.
A conclusão do debate foi que o tema não deve ficar restrito ao âmbito do INCT TILDIAR. A proposta, portanto, é aproximar outros INCTs e comunidades científicas para reunir estudos e evidências sobre o assunto. Para tanto, foi indicada a de criação de um Grupo de Trabalho sobre Soberania Digital e Tecnológica. O professor José Antonio Fernandes de Macedo, da Universidade Federal do Ceará (UFC), foi indicado para liderar este grupo de trabalho.
Relações institucionais e diálogo com o governo
Outra frente discutida foi a relação do Instituto com órgãos públicos e outras instituições. A proposta é levar o conhecimento produzido pelos pesquisadores para os espaços em que são discutidas políticas, normas e diretrizes sobre inteligência artificial.
Dados, algoritmos, infraestrutura e governança digital são alguns dos temas que exigem conhecimento científico e técnico. “A comunidade acadêmica pode contribuir para que essas discussões sejam feitas com mais informação e menos improviso”, declarou Altigran Silva (UFAM).
Nesse contexto, foi proposta a criação de um Grupo de Trabalho sobre Relações Institucionais. O grupo deverá organizar a interlocução do INCT TILDIAR com órgãos do governo e outras instituições e identificar oportunidades para que pesquisadores da rede contribuam com discussões e políticas públicas de IA. Altigran Silva foi recomendado para coordenar a iniciativa.
Na ocasião, também, foi discutida também a necessidade de amplificar as ações que possam tornar mais acessível o conhecimento produzido pelo INCT e ajudar públicos não especializados a compreender o que significa usar inteligência artificial de forma responsável. A professora Maria José Finatto (UFRGS) citou, como exemplo dessa urgência, uma escola de ensino fundamental do sul do Brasil que já desenvolve atividades relacionadas à inteligência artificial responsável. O caso mostra como o tema já chegou à sociedade, em especial à rotina de estudantes e professores.
No dia seguinte, 5 de agosto, um grupo menor de pesquisadores analisou as propostas e outros desafios práticos, e indicou planejamento para os próximos passos. O coordenador Marcos Gonçalves avaliou o encontro como um grande sucesso, ao qual classificou como um indicador de que o INCT TILDIAR segue no caminho certo e agora inicia nova fase. “Depois de estruturar a rede e aproximar os grupos, o desafio é fazer com que essa aproximação resulte em novos projetos, pesquisas e ações conjuntas”, concluiu.
Galeria de fotos e vídeos
Acesse o banco de fotos e vídeos do II Workshop Rali INCT TILDIAR. Aqui você encontra grande quantidade de fotos, disponíveis para download. Por favor, dê o crédito para “Acervo INCT TILDIAR”. Clique aqui para acessar.
Notícia atualizada em 13/8/2026










