Linguagem simples e IA para tornar informações de saúde mais acessíveis

Projeto combina linguagem simples e IA para tornar informações de saúde mais acessíveis

CorPop Saúde, da UFRGS, investiga como simplificar textos técnicos sem perder precisão, ampliando o acesso à informação e apoiando políticas públicas.

Marcus Vinicius dos Santos
29 de junho de 2026

Entender corretamente uma receita médica, uma bula ou um termo de consentimento ainda é um desafio para milhões de brasileiros. Para reduzir essa barreira, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) desenvolvem o CorPop Saúde, projeto que reúne linguística, estudos de letramento e inteligência artificial para simplificar documentos técnicos sem comprometer a precisão das informações.

Linguagem simples e IA para tornar informações de saúde mais acessíveis
A comunicação por meio de documentos como bulas e termos de consentimento ainda representa um desafio para muitos pacientes; a pesquisa busca tornar essas informações mais claras. Imagem ilustrativa gratuita: Vecteezy.com 

Selecionado com nota máxima no Edital 06/2025 do Programa Pesquisador Gaúcho (PqG), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs), o CorPop Saúde terá duração de 36 meses.

A iniciativa é coordenada pela professora Maria José Bocorny Finatto, do Programa de Pós-graduação em Letras da UFRGS, e amplia o CorPop original. O acervo digital foi criado em 2018, com  textos simplificados, sobre temas variados, pela pesquisadora Bianca Pasqualini.

Finatto também integra o comitê gestor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Inteligência Artificial Responsável para Linguística Computacional, Tratamento e Disseminação de Informação (INCT TILDIAR), rede nacional dedicada ao desenvolvimento e ao uso responsável da inteligência artificial.

Segundo a coordenadora, o projeto chama a atenção para o fato de que “quando o paciente entende perfeitamente uma instrução, ele consegue executar a ação sabendo do que se trata e entendendo as conexões envolvidas”, afirma. E isso é de grande importância para que o cuidado com a saúde seja efetivo.

Por outro lado, a dificuldade para interpretar os documentos técnicos pode comprometer o tratamento. Entre os possíveis problemas gerados estão desde a combinação inadequada de medicamentos com determinados alimentos, à interrupção de cuidados básicos após o uso de inaladores, por exemplo.

“Esses ruídos podem gerar desperdício de recursos e dificuldades na interação entre usuários e servidores do SUS. E não é culpa das pessoas”, destaca. Até mesmo palavras consideradas comuns podem criar barreiras para a compreensão de documentos oficiais. Especialmente em um contexto de baixo letramento linguístico e letramento em saúde limitado.

Como simplificar documentos sem perder precisão

Um dos principais focos do CorPop Saúde, além da análise de bulas de medicamentos e de guias de saúde produzidos por órgãos públicos, é o estudo dos Termos de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLEs), utilizados em pesquisas e procedimentos médicos.

Para Maria José, muitos desses documentos deixaram de cumprir sua função principal. “Na prática, as pessoas assinam sem entender. Os termos viraram uma formalidade jurídica e, em geral, são incompreensíveis”, afirma.

A nova pesquisa também tem como meta reunir vocabulários mais frequentes e potencialmente mais fáceis de entender; além de mapear conceitos especializados que já circulam entre a população, mesmo quando esse conhecimento ainda é parcial ou impreciso do ponto de vista científico.

Diante desses desafios, Bianca Pasqualini destaca que não existe uma solução única para simplificar textos. “Tudo depende de quem escreve, para quem se escreve e com qual objetivo”, afirma. Ela esclarece que o nível de detalhamento varia conforme o tipo de documento, seja bula, cartilha, notícia ou termo de consentimento, e, conforme o perfil do leitor.

No caso do trabalho com as bulas, por exemplo, e que envolve todo o acervo disponibilizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), foi firmada parceria com pesquisadores da Faculdade de Farmácia da UFRGS. Essa pesquisa visa compreender como termos técnicos, palavras pouco usuais e estruturas complexas podem dificultar a compreensão das orientações e, consequentemente, comprometer o uso seguro dos medicamentos. 

Com a participação da pesquisadora Tatiane Dal Pizzol e da graduanda em Farmácia Carolina Takeuchi, bolsista do INCT TILDIAR, a proposta trata a simplificação da informação veiculada por meio das bulas como um processo de tradução intralinguística, isto é, adapta a linguagem ao repertório do leitor sem alterar o conteúdo técnico.

Inteligência artificial como ferramenta de apoio

O novo  CorPop Saúde utiliza técnicas de Processamento de Linguagem Natural (PLN) e inteligência artificial para analisar e organizar grandes volumes de textos. As pesquisadoras, porém, ressaltam que essas ferramentas apoiam o trabalho humano, mas não substituem a responsabilidade dos especialistas.

Segundo Finatto, as ferramentas de IA não assumem responsabilidade por nada. Quem responde é quem usa. “Em temas relacionados à saúde, a validação humana continua indispensável”, afirma. Ela ainda alerta que “um profissional que traduz ou simplifica um texto assina o trabalho e pode ser responsabilizado pelas informações que divulgou”. Em temas de saúde, isso pode envolver riscos à vida.

Além da pesquisa acadêmica, o novo CorPop Saúde pretende contribuir também para a formulação de políticas públicas de comunicação em saúde, em consonância com a Política Nacional de Linguagem Simples. O projeto  já tem parcerias com grupos de pesquisa de universidades, programas de promoção do letramento e com o Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Para verificar a eficiência de diferentes simplificações de textos produzidas no projeto, está prevista a aplicação de questionários em diferentes regiões do país.

Ao desenvolver métodos para tornar informações técnicas mais compreensíveis, o novo projeto tem ainda o intuito de ampliar a autonomia da população, melhorar a interação entre usuários e servidores do SUS e apoiar políticas públicas voltadas para uma comunicação em saúde mais clara e acessível.

(Com informações de Marcelo Rosinski, estagiário de Jornalismo da Assessoria de Comunicação da UFRGS)

Atualizada em 30/06/2026

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